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RBCE - A revista da
acontece no chão de fábrica. É ali, por meio da experi-
ência de trabalhar diretamente com um produto, que se
entende como aperfeiçoá-lo — ou substituí-lo por algo
mais inovador. A inovação de baixo para cima (bottom-
-up) costuma ser inteligente justamente porque permite
que líderes continuem sendo líderes: inspirando, viabili-
zando e liberando a inovação, enquanto os funcionários
se tornam “criadores criativos”, o que é essencial na eco-
nomia atual, movida pela novidade e tecnologia – e foi
justamente o que guiou a ascensão chinesa. Ao sediarem
indústrias dos mais diversos setores, aprenderam a fazer,
a copiar, e a aprimorar e inovar.
Tendo residido em Xangai entre 2015 e 2022, visitei di-
versas fábricas em solo chinês, nas mais diferentes pro-
víncias. Pude perceber que, ali, na China, a sinergia entre
Imagem de Raul Lucuspor Pixabay produção e criação é realidade consumada. Eram fabri-
cantes de cabos de aço, tecidos, medicamentos, produtos
de robótica, químicos e mais. E, na maioria das empresas,
o orgulho do empresário não estava no preço baixo ou na
escala, e, sim, em mostrar a tecnologia agregada, os prê-
mios recebidos, as patentes criadas ali dentro, pelos em-
pregados da empresa. Isso demonstra uma mudança pro-
sões principais — industrial, tecnológica e cultural — e funda na lógica do empresário chinês, que valoriza cada
buscando compreender como essa disputa vem redese- vez mais o conhecimento e a propriedade intelectual.
nhando o sistema internacional contemporâneo. Por
m, ao re etir sobre o lugar do Brasil nesse cenário em Estatísticas recentes do governo indicam que, em 2025,
transformação, defendo a necessidade de construirmos a produção industrial chinesa cresceu 5,9% em relação
um modelo próprio, mais integrado e estrategicamente ao ano anterior, com o setor manufatureiro avançando
articulado, capaz não apenas de nos inspirar, mas tam- 6,4%. De forma importante, a manufatura de alta tec-
bém de nos posicionar como uma força competitiva. nologia respondeu por 17,1% da produção industrial
— a maior participação já registrada — destacando o
progresso contínuo da China no seu aprimoramento in-
I INDÚSTRIA dustrial ( e State Council, 2026).
Em uma reunião de planejamento econômico realizada
Não faz muito tempo, a manufatura era vista como tra- no nal de 2025, o governo chinês de niu como prio-
balho barato e secundário - algo a ser terceirizado para ridade impulsionar o consumo e consolidar um mer-
países como o Vietnã ou mesmo para a própria China. cado interno robusto - servindo como um “amortece-
Desde a chegada de Trump à Casa Branca para o seu se- dor” contra incertezas externas. Essa abordagem re ete
gundo mandato, ela voltou ao centro das atenções em a intenção de sustentar tanto a base industrial quanto
Washington, que deseja repatriar a produção de iPhones a força do mercado doméstico ao longo do novo ciclo
e de tudo o mais que for possível. O objetivo é concen- quinquenal, que se inicia em 2026, com o primeiro ano
trar em solo americano aquilo que é “imaginado, proje- do 15º Plano Quinquenal da China (2026–2030). E,
tado e feito (ao menos em parte)”, ao contrário de anos a partir de 17 de fevereiro, com a chegada do ano do
atrás, quando priorizavam apenas o design, e não se im- Cavalo de Fogo na China, os chineses apostam em uma
portavam com as etiquetas “fabricado na China”. energia de competição, dinamismo, movimento e ou-
sadia. Se Trump quer trazer a manufatura de volta aos
Mais do que preservar empregos e reverter o gigantes- Estados Unidos, a China não está disposta a perdê-la.
co dé cit comercial que os Estados Unidos têm com a
China, trazer a manufatura de volta para o solo norte-a- Nos EUA, a produção industrial ainda não conseguiu
mericano envolve também uma contenção da ascensão traduzir o discurso do “reshoring” em uma recuperação
tecnológica chinesa, já que grande parte da inovação manufatureira consistente. As medidas protecionis-
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