Page 48 - RBCE 166
P. 48
China - EUA
Múltiplas Frentes da Rivalidade Tecnológica
entre EUA e China
As opiniões e análises apresentadas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus
autores e não re etem, necessariamente, a posição institucional da Funcex.
Otaviano Canuto
Este artigo examina a rivalidade tecnológica em evolução entre os EUA e a China como um eixo central da compe-
tição geopolítica e econômica contemporânea. Embora os EUA mantenham a liderança na inovação de fronteira
— particularmente em semicondutores avançados, modelos de IA e ecossistemas de pesquisa —, a China tem redu-
zido a distância de forma constante por meio da implementação em larga escala, da coordenação industrial e de um
controle crescente sobre as principais cadeias de suprimentos globais.
A rivalidade desenrola-se agora em múltiplas frentes interconectadas, incluindo semicondutores e IA, aplicações
tecnológicas e ecossistemas industriais, energia limpa, minerais críticos e infraestrutura energética. A análise destaca
uma assimetria estrutural: a vantagem comparativa da China reside na incorporação de tecnologias “su cientemen-
te boas” em sistemas de produção física, apoiada pela coordenação estatal e pela escala, ao passo que os EUA depen-
dem da liderança em inovação, dos mercados de capitais e de formas mais seletivas de política industrial.
A competição tecnológica projeta-se também, de forma crescente, sobre terceiras regiões — particularmente o Sul
Global — por meio do desenvolvimento de infraestrutura, sistemas energéticos e redes digitais. O artigo conclui
que a rivalidade entre EUA e China já não se de ne unicamente pela liderança em inovação, mas sim pela capaci-
dade de integrar a tecnologia à produção, aos sistemas energéticos e à in uência geopolítica, resultando em uma
ordem tecnológica global fragmentada, porém profundamente interdependente.
SUBIR A ESCADA ATÉ O TOPO POR CONTA PRÓPRIA
Até o momento, a China tem sido um dos casos de maior sucesso entre os países que ascenderam dos degraus infe-
riores para os superiores da escada de renda durante a era da globalização (Canuto, 2021). Essa ascensão tornou-se
possível pela combinação do acesso a tecnologias difundidas pela globalização com um “dever de casa” sustentado
na construção de capacidades tecnológicas locais e idiossincráticas (Canuto, 1995). O resultado foi uma elevação
............................................................................
Otaviano Canuto foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID). Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Atualmente é
membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente da Brookings Institution, distinguished visiting sênior fellow e profes-
sor na Elliott School of International A airs da George Washington University. É membro do Conselho Superior da FUNCEX.
44 Nº 166 - Janeiro, Fevereiro e Março de 2026

