Page 64 - RBCE 166
P. 64
Transição energética
peus nanciados por subsídios públicos e afetados por contratos raramente são su cientes, pois a aceitação do
entraves regulatórios. produto nal depende de processos industriais poste-
riores que estão fora do controle do projeto minerador.
Esse modelo é exógeno ao mercado. O nanciamento não A consequência prática é que bancos e investidores não
decorre de busca de e ciência econômica, mas da tentati- conseguem avaliar risco tecnológico, risco de qualidade
va de compensar falhas estruturais associadas à ausência e risco de demanda de forma independente. A experi-
de cadeias completas por motivos geopolíticos. O capi- ência internacional mostra que, sem integração downs-
tal privado se retrai, os custos de transação permanecem tream, projetos nanciados via project nance tendem
elevados e a sustentabilidade nanceira no longo prazo é a enfrentar atrasos, revisões contratuais ou cancelamen-
limitada. Trata-se de um modelo defensivo, politicamen- tos, como observado em iniciativas de terras raras na
te condicionado, que não altera a posição estrutural dos Groenlândia, no Canadá e em partes da África.
países envolvidos na cadeia global de valor.
Modelo 3: Financiamento misto O CASO BRASILEIRO: RESERVAS,
FINANCIAMENTO E LIMITES
O terceiro modelo é o nanciamento misto, observado em
países como Japão, Austrália e Canadá. Nesse arranjo, o ESTRUTURAIS
nanciamento combina capital privado, apoio estatal sele-
tivo e contratos de o
ake destinados a reduzir a incerteza O Brasil exempli ca de forma clara a distinção conceitual
de demanda. Esse modelo tem funcionado relativamente entre ativos geológicos e ativos econômicos. Apesar de pos-
bem para minerais de menor complexidade tecnológica, suir uma das maiores reservas globais de terras raras, o país
como lítio e níquel, mas apresenta limitações signi cativas responde por uma parcela mínima da produção mundial.
no segmento de terras raras, onde o domínio tecnológico Essa discrepância não decorre de limitações naturais ou ins-
do re no é determinante do valor econômico. titucionais, mas de fatores estruturais: ausência de domínio
tecnológico nas etapas de re no e separação química, es-
Parcerias Japão–Austrália em projetos de lítio e níquel ilus- cassez de equipamentos especializados, limitações em capi-
tram esse modelo, assim como iniciativas canadenses em tal humano técnico e, sobretudo, falta de integração com
terras raras e gra te, que combinam recursos públicos e pri- compradores industriais capazes de absorver a produção
vados. Apesar de ambientes institucionais estáveis e acesso em padrões de pureza exigidos pelo mercado global.
a capital nanceiro, esses projetos enfrentam elevado custo
de capital e longos prazos de maturação, re etindo a ausên- Vimos na experiência internacional, projetos de mine-
cia de integração plena nas etapas críticas da cadeia. ração que se limitam à extração enfrentam custos de
transação elevados e risco tecnológico não preci cável.
A incerteza não está apenas no volume ou no preço do
Di culdade do Modelo Project Finance
minério, mas na capacidade de transformá-lo em produ-
Um ponto recorrente na evidência internacional é o to nal com especi cações industriais rigorosas. Nessas
fracasso sistemático do project nance clássico quando condições, o capital privado tende a se retrair, pois não
aplicado a projetos de minerais críticos, especialmen- consegue avaliar de forma con ável o risco associado ao
te terras raras. Diferentemente de setores como energia projeto. O nanciamento que surge, quando surge, assu-
elétrica, concessões rodoviárias ou saneamento, projetos me caráter episódico, estratégico ou político, sem alterar
de mineração crítica não apresentam uxos de caixa está- a posição estrutural do país na cadeia global de valor.
veis, tecnologia madura nem previsibilidade de demanda
independente da estrutura industrial. No caso de terras Tabela 1 ilustra os principais nanciamentos ocorridos
raras, a qualidade econômica do projeto depende menos no setor de minerais críticos nos últimos 5 anos. O caso
do volume extraído e mais da capacidade de re no, sepa- da Serra Verde, mineradora brasileira de terras raras lo-
ração química e atendimento a especi cações industriais calizada em Goiás, é particularmente ilustrativo desse
extremamente rigorosas. Como essas etapas não estão in- dilema. A empresa opera o projeto Pela Ema, atualmen-
ternalizadas no projeto de mineração, o risco torna-se não te uma das poucas iniciativas fora da Ásia com capacida-
mensurável para nanciadores tradicionais. de comercial de produzir terras raras pesadas. Do ponto
de vista geológico e operacional, trata-se de um ativo
Além disso, o project nance pressupõe a existência de relevante. No entanto, do ponto de vista da e ciência de
contratos de longo prazo capazes de isolar o projeto de mercado, o projeto revela tanto avanços quanto limites
riscos externos relevantes. Em minerais críticos, esses estruturais da inserção brasileira no setor.
60 Nº 166 - Janeiro, Fevereiro e Março de 2026

