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Geopolítica


          Portanto, em tese, os preços serão pressionados para bai-  algodão sofre também pelos impactos da guerra em ca-
          xo. No curto prazo (próximos 6–12 meses), com a alta  deias têxteis, consumo global e taxas de juros; porém, o
          de custos (fertilizantes, logística) isso mantêm Chicago  encarecimento generalizado de insumos tende a reduzir
          sustentado. A perda súbita de mercado com o Irã como  a área em margens menos e cientes, sustentando preços
          destino tende a derrubar prêmios e segurar o preço in-  médios internacionais.
          terno abaixo do potencial “teórico” dado pela curva in-
          ternacional. O resultado será que o produtor sentirá a  As carnes dependem fortemente do custo de ração (mi-
          margem apertada, porque vende num mercado interno   lho e farelo de soja) e de energia para granjas, frigorí cos
          mais pressionado enquanto seus custos sobem.        e logística refrigerada. A combinação de milho caro, soja
                                                              valorizada e energia mais cara tende a elevar o custo de
          No médio prazo (1–3 safras), se a perda de mercado com  produção de bovinos con nados, suínos e aves.
          o Irã se mostrar estrutural, o mercado reage com redução
          de área de milho em regiões mais distantes de portos, au-  Os países do Oriente Médio são mercados-chave para car-
          mento de área de soja ou algodão, ou migração de milho   ne de frango e bovina brasileiras, grande parte em padrão
          para etanol (onde houver planta). Isso tende a corrigir o   halal, e muito dependentes de importação. A guerra afeta
          excesso  de  oferta  e  reequilibrar  preços  internos,  mas  ao  esses  mercados  por  três  canais:  encarecimento  de  ração
          custo de uma ou duas safras de margens comprimidas.  (milho/farelo),  restrição  de  renda/câmbio  e  crédito  im-
                                                              portador, risco logístico/seguro para navios frigorí cos.
          Além disso, não há exatamente um mercado substituto
          para escoar a produção antes destinada ao Irã no curto   Se alguns países (Irã em especial) reduzirem signi cativa-
          prazo. A abertura de novos mercados ou sua ampliação   mente importações de carne por falta de divisas e logísti-
          não é um fenômeno rápido. A China, o Egito, a UE, o   ca, exportadores brasileiros podem encarar um vácuo de
          México e o sudeste asiático podem absorver parte do  demanda em volumes relevantes, com eventual redirecio-
          milho brasileiro, sobretudo se o Brasil trabalhar preços   namento parcial para Ásia, África e outros mercados.
          agressivos (basis mais negativo) e logística competitiva.
                                                              No curto prazo, maiores custos podem pressionar mar-
          Enquanto essa reacomodação não acontece, o Brasil  ca   gens e levar a ajustes de plantel, especialmente em suínos
          com estoques mais altos que o planejado (carrego), com   e aves, que reagem rápido ao ciclo de preços. No mé-
          a demanda interna por ração mais confortável e pressão   dio prazo, menor oferta em alguns países pode susten-
          maior sobre a rentabilidade de quem depende 100% da   tar preços internacionais de carnes; o Brasil, com forte
          exportação de milho. Esse “carrego” ainda pode conta-  posição exportadora, tende a ganhar participação, desde
          minar a safra seguinte, reduzindo espaço de alta de pre-  que consiga manter competitividade em custo de ração
          ço mesmo se a produção cair um pouco.               e logística. Há risco adicional de protecionismo e me-
                                                              didas sanitárias usadas como barreira, em um contexto
          Algumas cadeias têm alta chance de viver dinâmica pare-  geopolítico mais tenso, o que adiciona incerteza ao mer-
          cida com a do milho para o Oriente Médio. O choque de  cado de carnes.
          demanda regional, o excesso exportável na origem e basis
          pressionado, mesmo com preços internacionais  rmes.  Além disso, outros segmentos sensíveis são os de açúcar
                                                              e etanol. O maior preço do petróleo tende a valorizar
          No que tange à soja, esta é relativamente menos intensiva  combustíveis alternativos (etanol), o que bene cia o
          em  nitrogenados  sintéticos,  mas  depende  fortemente  de  complexo sucroenergético brasileiro, mas também en-
          fosfatos e potássio, que o Brasil importa majoritariamente.  carece insumos e transporte.

          Assim, dado o peso do Brasil no mercado mundial de  Por  m, mas não menos importante, os defensivos agrícolas
          soja, qualquer aperto de margem pode reduzir aplica-  e produtos químicos, intensivos em energia e derivados pe-
          ção de insumos em parte da área, com risco de queda  troquímicos, também sofrem pressão de custos. O aumen-
          de produtividade, o que sustentaria ainda mais os preços  to dos fretes marítimos, dos prêmios de seguro e dos riscos
          internacionais.                                     logísticos eleva o custo de toda a cadeia agroalimentar.

          No caso do algodão, também com demanda intensa      Como contrapartida, produtores com maior e ciência
          por insumos (fertilizantes, defensivos, energia para ir-  operacional e logística tendem a ampliar participação
          rigação e colheita), os custos de produção sobem com  no mercado global, capturando oportunidades em cená-
          fertilizantes e combustíveis. E, como  bra industrial, o  rios de disrupção e recon guração de  uxos comerciais.

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